Eventualmente leio matérias
sobre esoterismo, holismo, terapias e percebo em alguns
casos um contexto vago e inconsistente. Diria excessivamente
religioso. Naturalmente, não tenho nada contra a
religiosidade, mas em excesso – como tudo na vida
– não é saudável. Na maioria
dos casos tudo é analisado como sendo culpa do externo,
das outras pessoas ou mesmo da sociedade, responsabilizando
inclusive a felicidade de cada indivíduo as outras
pessoas, ou seja, ao que está fora dela mesma.
Não é um hábito meu criticar abertamente
essa conduta (ou qualquer outra), mas hoje senti uma necessidade
muito forte de - pelo menos - contestar, afinal, trabalhando
com Tarô há tantos anos me incomoda um pouco
essa visão. Para quem não conhece bem a terapia,
a visão holística ou mesmo o esoterismo soa
como falta de argumentos a postura defensiva por parte de
um escritor visto que não está (teoricamente)
filiado a nenhuma religião ou ceita, mas prega como
tal.
Podemos notar frases como: “a sociedade impõe
os hábitos e costumes e o ser humano sofre com isso”.
Eu respondo: “mas essa mesma sociedade não
é composta por seres humanos? Não são
eles mesmos que alimentam e mantém essas regras?
E eu, vou oferecer a” cura “desse” mal
“de que maneira, se é apenas a própria
pessoa que poderá descobrir esse desequilíbrio?
Indo pouco mais além… eu não sou um
ser humano que faz parte dessa mesma sociedade? Me isolar
e não conviver com ela não parece escorregadio
e fugitivo demais?”.
É muito cômodo falarmos dos outros como seres
inferiores sabendo que somos todos semelhantes e o que nos
diferencia é exatamente nossas características
internas, provando que não há parâmetros
para termos uma pessoa espiritualizada ou não.
Quantas pessoas nascem com dons maravilhosos de vidência,
profetizações e não usam seus dons?
Quantas pessoas estão exercendo sua missão
perfeitamente sem ao menos terem noção disso?
Essas pessoas, literalmente, são espiritualizadas,
e nem por isso se separam do coletivo ou criticam abertamente
os outros por não terem possibilidades iguais as
que elas naturalmente têm. Porém, é
curioso perceber que todos queremos ser “evoluídos”
mas quando precisamos enfrentar os dogmas sociais / religiosos
nem sempre temos a convicção prática
que pregamos na teoria. Isso tudo não faz ninguém
melhor ou pior do que ninguém. Apenas o diferencia.
Podemos facilmente exemplificar um símbolo dentro
da questão: o Arcano 6, Os Enamorados (ou Amantes)…
o símbolo mostra que temos o livre arbítrio
para fazermos as opções e escolhas dos caminhos
que vamos trilhar ao longo da vida. Não é
apenas uma opção - mas várias - ao
longo do tempo (ainda bem, eu diria). E, diga-se de passagem,
o próprio símbolo mostra responsabilidade
na escolha, mostrando que ninguém será o “culpado”
pela nossa opção a não ser nós
mesmos. Prefiro chamar essa culpa de responsabilidade, uma
vez que estamos aqui para aprender e não sermos punidos,
ótica que acaba por interferir em todo e qualquer
processo de vida que não seja, minimamente, consciente.
O Louco, Arcano sem Número, que traz a simbologia
da liberdade pode ser o início deste entendimento.
Ele tem a liberdade para caminhar por onde quiser, basta
exercer sua coragem e seu desprendimento. A partir dele,
é possível escolher por onde trilhar (Arcano
6 – Os Amantes), se entregar a sua escolha (Arcano
12, O Pendurado) tendo a possibilidade de estagnar nela
ou espiritualizar-se nela. E, 6 Arcanos depois, temos a
finalização na Estrela, Arcano 17, que mostra
o encontro consigo mesmo. Nesta carta não temos o
modelo desse momento, apenas o encontro, que acontece para
cada um na hora que ele mesmo escolheu devido a sua própria
trajetória. Pode ser agradável ou não,
porém, não cabe a outro ser humano (visto
que somos semelhantes em matéria) julgar.
Creio que o mais importante seja ouvirmos o que está
dentro de nós, e não ver o que está
fora. Basear-se nos moldes externos pode nos atrapalhar
em nossa caminhada, pois podemos seguir para um lado oposto
somente para mostrar que não somos guiados por ninguém,
e assim, perder um tempo precioso em nossas vidas. A idéia
de culpa, arrependimento, pecado, certo e errado são
externos e não têm valor quando falamos de
universo interior. Somente nós mesmos sabemos o que
queremos agora.
Freqüentemente as pessoas buscam auxílio, soluções,
mas esse fato não transfere a responsabilidade de
guiarem suas vidas ou mesmo usarem de seu livre arbítrio,
tão importante para a segurança e o bem estar
pessoal. São palavras chaves, baseadas nos Arcanos
deste caminho sêxtuplo, tais como: Liberdade e desprendimento
(Louco), que conduzem ao Livre arbítrio (Enamorados
/ Amantes), o contato com o espírito único
e divino de cada um (Pendurado) que re-descobre a pureza
e fé de cada um (Estrela).
Como vemos nessa trajetória, em momento algum temos
outros personagens a não ser o próprio indivíduo.
Caso contrário, uma pessoa que mora no campo, cultiva
a terra e de seus frutos têm sua subsistência
não teria espiritualidade. E isto é um equívoco
lamentável, pois toda e qualquer pessoa tem sua espiritualidade
e a acessa como acredita. Não é preciso ser
tarólogo, terapeuta ou xamã para se atingir
a felicidade e a evolução. O mundo não
precisa de todos fazendo a mesma coisa ou exercendo atividade
idêntica para ter seus problemas solucionados.
Pensamentos assim precisam de muitas páginas, a fim
de serem aprofundados, porém aqui é possível
citar um poema que faz desabrochar – verdadeiramente
- essa necessidade em cada um de nós:
Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes.
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o
mundo?
Sim: há diferença
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter
teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei,
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só
diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta
nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas,
são pedras;
E as plantas são plantas só, e não
pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é
uma pedra”,
Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
Poemas de Alberto Caieiro (Fernando Pessoa – 1913/1915).
Por Kelma Mazziero
(Taróloga e Terapeuta)
Membro do ITS (International Tarot Society;
Taróloga Profissional reconhecida pelo ATA - American
Tarot Association; CRT 31440)
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