Artigo Tarô | Escrito por Gustavo Pessoa
O Tarô e a Liberdade

Eventualmente leio matérias sobre esoterismo, holismo, terapias e percebo em alguns casos um contexto vago e inconsistente. Diria excessivamente religioso. Naturalmente, não tenho nada contra a religiosidade, mas em excesso – como tudo na vida – não é saudável. Na maioria dos casos tudo é analisado como sendo culpa do externo, das outras pessoas ou mesmo da sociedade, responsabilizando inclusive a felicidade de cada indivíduo as outras pessoas, ou seja, ao que está fora dela mesma.

Não é um hábito meu criticar abertamente essa conduta (ou qualquer outra), mas hoje senti uma necessidade muito forte de - pelo menos - contestar, afinal, trabalhando com Tarô há tantos anos me incomoda um pouco essa visão. Para quem não conhece bem a terapia, a visão holística ou mesmo o esoterismo soa como falta de argumentos a postura defensiva por parte de um escritor visto que não está (teoricamente) filiado a nenhuma religião ou ceita, mas prega como tal.

Podemos notar frases como: “a sociedade impõe os hábitos e costumes e o ser humano sofre com isso”. Eu respondo: “mas essa mesma sociedade não é composta por seres humanos? Não são eles mesmos que alimentam e mantém essas regras? E eu, vou oferecer a” cura “desse” mal “de que maneira, se é apenas a própria pessoa que poderá descobrir esse desequilíbrio? Indo pouco mais além… eu não sou um ser humano que faz parte dessa mesma sociedade? Me isolar e não conviver com ela não parece escorregadio e fugitivo demais?”.

É muito cômodo falarmos dos outros como seres inferiores sabendo que somos todos semelhantes e o que nos diferencia é exatamente nossas características internas, provando que não há parâmetros para termos uma pessoa espiritualizada ou não.
Quantas pessoas nascem com dons maravilhosos de vidência, profetizações e não usam seus dons? Quantas pessoas estão exercendo sua missão perfeitamente sem ao menos terem noção disso?
Essas pessoas, literalmente, são espiritualizadas, e nem por isso se separam do coletivo ou criticam abertamente os outros por não terem possibilidades iguais as que elas naturalmente têm. Porém, é curioso perceber que todos queremos ser “evoluídos” mas quando precisamos enfrentar os dogmas sociais / religiosos nem sempre temos a convicção prática que pregamos na teoria. Isso tudo não faz ninguém melhor ou pior do que ninguém. Apenas o diferencia.

Podemos facilmente exemplificar um símbolo dentro da questão: o Arcano 6, Os Enamorados (ou Amantes)… o símbolo mostra que temos o livre arbítrio para fazermos as opções e escolhas dos caminhos que vamos trilhar ao longo da vida. Não é apenas uma opção - mas várias - ao longo do tempo (ainda bem, eu diria). E, diga-se de passagem, o próprio símbolo mostra responsabilidade na escolha, mostrando que ninguém será o “culpado” pela nossa opção a não ser nós mesmos. Prefiro chamar essa culpa de responsabilidade, uma vez que estamos aqui para aprender e não sermos punidos, ótica que acaba por interferir em todo e qualquer processo de vida que não seja, minimamente, consciente.

O Louco, Arcano sem Número, que traz a simbologia da liberdade pode ser o início deste entendimento. Ele tem a liberdade para caminhar por onde quiser, basta exercer sua coragem e seu desprendimento. A partir dele, é possível escolher por onde trilhar (Arcano 6 – Os Amantes), se entregar a sua escolha (Arcano 12, O Pendurado) tendo a possibilidade de estagnar nela ou espiritualizar-se nela. E, 6 Arcanos depois, temos a finalização na Estrela, Arcano 17, que mostra o encontro consigo mesmo. Nesta carta não temos o modelo desse momento, apenas o encontro, que acontece para cada um na hora que ele mesmo escolheu devido a sua própria trajetória. Pode ser agradável ou não, porém, não cabe a outro ser humano (visto que somos semelhantes em matéria) julgar.

Creio que o mais importante seja ouvirmos o que está dentro de nós, e não ver o que está fora. Basear-se nos moldes externos pode nos atrapalhar em nossa caminhada, pois podemos seguir para um lado oposto somente para mostrar que não somos guiados por ninguém, e assim, perder um tempo precioso em nossas vidas. A idéia de culpa, arrependimento, pecado, certo e errado são externos e não têm valor quando falamos de universo interior. Somente nós mesmos sabemos o que queremos agora.

Freqüentemente as pessoas buscam auxílio, soluções, mas esse fato não transfere a responsabilidade de guiarem suas vidas ou mesmo usarem de seu livre arbítrio, tão importante para a segurança e o bem estar pessoal. São palavras chaves, baseadas nos Arcanos deste caminho sêxtuplo, tais como: Liberdade e desprendimento (Louco), que conduzem ao Livre arbítrio (Enamorados / Amantes), o contato com o espírito único e divino de cada um (Pendurado) que re-descobre a pureza e fé de cada um (Estrela).

Como vemos nessa trajetória, em momento algum temos outros personagens a não ser o próprio indivíduo. Caso contrário, uma pessoa que mora no campo, cultiva a terra e de seus frutos têm sua subsistência não teria espiritualidade. E isto é um equívoco lamentável, pois toda e qualquer pessoa tem sua espiritualidade e a acessa como acredita. Não é preciso ser tarólogo, terapeuta ou xamã para se atingir a felicidade e a evolução. O mundo não precisa de todos fazendo a mesma coisa ou exercendo atividade idêntica para ter seus problemas solucionados.

Pensamentos assim precisam de muitas páginas, a fim de serem aprofundados, porém aqui é possível citar um poema que faz desabrochar – verdadeiramente - essa necessidade em cada um de nós:

Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes.
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei,
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,
Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Poemas de Alberto Caieiro (Fernando Pessoa – 1913/1915).

Por Kelma Mazziero (Taróloga e Terapeuta)
Membro do ITS (International Tarot Society;
Taróloga Profissional reconhecida pelo ATA - American Tarot Association; CRT 31440)