A primeira consideração
a se fazer a respeito dos arcanos maiores é que eles
não podem de fato ser vistos isoladamente; como já
foi proposto, há uma ordem no Tarô que baseia
e preconiza sua filosofia. É interessante notar como
essa ordem, bem como o nome das cartas, vêm sendo
alterados de forma livre e irrestrita por diversos autores,
injetando dentro das cartas simbolismo e filosofia que não
originalmente as pertence. O exemplo mais ilustre disto
está na inversão do arcano Força com
o arcano Justiça, onde o onze se torna oito como
se não fizesse diferença. Diferença
há, exceto se admitirmos que a ordem das cartas é
irrelevante e este não é o propósito.
Como caminho evolutivo, se o Sol, símbolo máximo
da lucidez e da clareza, está a frente da Lua, ligada
irremediavelmente à confusão da dualidade
consciente-inconsciente, como podemos negar que há
ordem e esta não pode ser alterada? Uma alteração
no caminho lógico seguido pelos arcanos maiores altera
a sua própria essência e torna indiferente
sua numeração. Se quisermos compreender completamente
a significação de todos os arcanos, devemos
compreender sua filosofia e porque cada carta ocupa um determinado
número de acordo com o tarô original, se é
que este termo pode ser usado.
O problema do nome pode ser ainda mais inconveniente; isto
porque na maioria dos tarôs onde o nome das cartas
é trocado, o que ocorre é que se põe
um substantivo tendencioso em seu lugar. Cabem exemplos:
há tarôs em que o arcano XVI, a Torre, é
nomeada como A Destruição. De fato, pode ocorrer
destruição em presença da Torre, mas
torna-se inconsequência e não mais que isso
nomeá-la desta maneira; em outro exemplo, um de meus
tarôs preferidos, por suas imagens arquetípicas,
traz a carta da Lua retratada como Ilusão. Ora, é
verdade que a Lua pode denotar ilusão em algumas
ocasiões também. O problema acontece quando
há generalização do substantivo e não
do símbolo! A Lua e a Torre são arquétipos
usados de tal maneira pelo Tarô que chamá-los
simplesmente por um substantivo corriqueiro não abarca
todo o seu potencial de sentido, deixando muito a desejar
para a interpretação.
Tratados e clarificados os problemas, tendo certo que usaremos
aqui a ordem original do tarô e também seus
nomes, voltamos para nossa questão primeira. Deve-se
admitir e trabalhar com o fato de que o tarô traz
uma ordem lógica dentro de sua filosofia, que deve
ser tratada e estudada no momento em que tentamos compreender
os arcanos, tanto os menores quanto os maiores. No caso
dos arcanos maiores, uma visão ampla do caminho percorrido
desde o arcano um ao vinte e um, conectados pelo Louco,
pode elucidar muito sobre uma questão específica
e também nos retirar dúvidas que parecem perseguir
os aprendizes de tarô. Tentemos um exemplo:
Quando a carta que representa o que o outro sente por nós
é a Temperança, o que dizer? Como compreender
o significado desta carta dentro do contexto “a Temperança
é o que ele(a) sente por mim”. Nota-se que
é muito diferente explicar o que é a Temperança
e o que é a Temperança que alguém sente
por você. No primeiro caso, a carta torna-se um objeto
independente, completo em si e repleto de simbolismo despersonificado;
é fácil para nós falarmos que a Temperança
é: símbolo divino e cármico, uma longa
espera e suspensão dos fatos. Isto é estudado
através dos símbolos da carta. Contudo...
o que é a Temperança que sente por alguém
alguma coisa? Agora, não lidamos mais com a Temperança
essencial; nós a estamos desdobrando em pessoas,
sentimentos e objetos que não serão ela própria.
Tenho certeza que isto ficará claro caso você
tente dizer a uma pessoa que o que o outro sente por ela
é “símbolo divino e cármico,
longa espera e suspensão”, já que certamente
você levará um soco, uma palavra rude ou ao
menos uma cara feia terá como resposta. Isto porque
a pergunta não foi respondida; a pergunta nunca é
o que o arcano é, mas sim o que está manifestado
no objeto que está envolvido pelo arcano naquele
momento.
Para que saber o que o arcano é, então? Porque
é a partir do que o arcano é que podemos sabemos
no que ele se torna em uma dada situação.
Se não soubermos simbolicamente a respeito dele,
nunca poderemos partir para a interpretação
dele naquele dado contexto. Daí o erro em renomear
Torre em Destruição: destruição
é o que a Torre pode se tornar mas não é
o que ela é! Nomeando-a como tal, a compreensão
se distorce e a interpretação fatalmente erra.
Tornando a questão anterior, como a ordem pode nos
ajudar num caso como aquele? Além de termos de saber
o que a Temperança se torna dada a situação,
qual o efeito da ordem no significado da Temperança?
Algumas análises são óbvias e outras
nem tanto. Partamos então para as mais fáceis:
A Temperança não é o arcano um, nem
o último arcano. Por isto, o sentimento está
contido num processo. Não é algo inicial,
à primeira vista, um encanto que nos inebria ou a
paixão que arrebata em apenas um instante; não
é a primeira atração. Já que
não é o último, sabemos também
que não está terminando, não está
claro nem certo ainda o que se sente e ainda há um
caminho a ser percorrido.
Isto pode soar como excessiva generalização
ou como pontos irrelevantes em uma interpretação,
mas nos ajuda a evitar uma série de erros; ao reconhecer
a Temperança como parte de um processo, local do
mesmo que não está no fim nem no início,
podemos saber do consulente que este sentimento que existe
“não é de hoje”. Ele não
se formou ontem nem terminará amanhã. Além
disso, reconhecemos que há uma história de
símbolos e significados até alcançarmos
a Temperança, que este sentimento já provou;
a Temperança é a apenas o estágio no
qual ele reside.
Prosseguimos. A carta anterior a Temperança é
a Morte, o arcano treze. Quais os significados do arcano
treze? Como qualquer ordem linear, se a sequência
à Morte é a Temperança, logo a Temperança
é a consequência da Morte. Isto nos traz novos
significados: a Morte é um período de mudança
e renovação onde a foice corta o mau fruto
para que o bom fruto tenha espaço para crescer novamente.
Ora, a Morte corta o mau fruto. Este é o seu significado.
Ponto final. Não podemos considerar que a Morte corte,
colha e plante o bom fruto, pois ela é apenas parte
de um ciclo e não o ciclo em si. Por isto, a consequência
da Morte é um terreno limpo, pronto para que se faça
o tratamento necessário durante o tempo que for preciso
para que o fruto possa ser replantado.
Apenas com esta explicação, já apreendemos
duas palavras-chave da Temperança: tratamento e tempo.
Prossigamos um pouco mais a respeito da ordem mantendo nosso
exemplo.
O que dizer do arcano seguinte? Analisemos da mesma maneira:
o arcano que segue a Temperança é o Diabo,
o arcano quinze; logo, o Diabo é a consequência
da Temperança. Usando a mesma linguagem da explicação
sobre a Morte, temos que a Temperança tratou da terra
e a plantou o fruto, esperando o tempo necessário
tanto para o tratamento quanto para o plantio. Lembremo-nos
que algumas frutas demoram anos para poderem ser colhidas.
Qual é o próximo passo? Bem, planta-se o fruto
para poder comê-lo. O Diabo experimenta do fruto e
farta-se dele, até que o seu excesso seja punido.
Como o Diabo não parará de se deliciar com
o fruto tratado no terreno da Temperança, só
a sua consequência – a Torre – poderá
fazer com que ele se dê conta de seu erro pelo excesso,
rompendo com a sua esbórnia.
Todos esses significados serão obtidos a partir de
uma análise da ordem da carta dentro da organização
e filosofia do Tarô e transformados para que caibam
na situação questionada, de acordo com seus
símbolos, para que possamos finalmente responder
a pergunta. Todavia, apenas por estas pequenas explicações,
pode-se notar como a ordem dos arcanos, feita a partir do
pensamento concebido para o Tarô, pode nos trazer
muito sobre significados de cada carta, além dos
próprios símbolos contidos na carta. A ordem
por si só conta uma história repleta de passagens
arquetípicas que podem, num relance, trazer soluções
a questões antes duvidadas por falta de uma análise
mais completa.
Gustavo Pessoa
Tarólogo |