Artigo Tarô | Escrito por Gustavo Pessoa
Os arcanos maiores - Ordem e interpretação

A primeira consideração a se fazer a respeito dos arcanos maiores é que eles não podem de fato ser vistos isoladamente; como já foi proposto, há uma ordem no Tarô que baseia e preconiza sua filosofia. É interessante notar como essa ordem, bem como o nome das cartas, vêm sendo alterados de forma livre e irrestrita por diversos autores, injetando dentro das cartas simbolismo e filosofia que não originalmente as pertence. O exemplo mais ilustre disto está na inversão do arcano Força com o arcano Justiça, onde o onze se torna oito como se não fizesse diferença. Diferença há, exceto se admitirmos que a ordem das cartas é irrelevante e este não é o propósito.

Como caminho evolutivo, se o Sol, símbolo máximo da lucidez e da clareza, está a frente da Lua, ligada irremediavelmente à confusão da dualidade consciente-inconsciente, como podemos negar que há ordem e esta não pode ser alterada? Uma alteração no caminho lógico seguido pelos arcanos maiores altera a sua própria essência e torna indiferente sua numeração. Se quisermos compreender completamente a significação de todos os arcanos, devemos compreender sua filosofia e porque cada carta ocupa um determinado número de acordo com o tarô original, se é que este termo pode ser usado.

O problema do nome pode ser ainda mais inconveniente; isto porque na maioria dos tarôs onde o nome das cartas é trocado, o que ocorre é que se põe um substantivo tendencioso em seu lugar. Cabem exemplos: há tarôs em que o arcano XVI, a Torre, é nomeada como A Destruição. De fato, pode ocorrer destruição em presença da Torre, mas torna-se inconsequência e não mais que isso nomeá-la desta maneira; em outro exemplo, um de meus tarôs preferidos, por suas imagens arquetípicas, traz a carta da Lua retratada como Ilusão. Ora, é verdade que a Lua pode denotar ilusão em algumas ocasiões também. O problema acontece quando há generalização do substantivo e não do símbolo! A Lua e a Torre são arquétipos usados de tal maneira pelo Tarô que chamá-los simplesmente por um substantivo corriqueiro não abarca todo o seu potencial de sentido, deixando muito a desejar para a interpretação.

Tratados e clarificados os problemas, tendo certo que usaremos aqui a ordem original do tarô e também seus nomes, voltamos para nossa questão primeira. Deve-se admitir e trabalhar com o fato de que o tarô traz uma ordem lógica dentro de sua filosofia, que deve ser tratada e estudada no momento em que tentamos compreender os arcanos, tanto os menores quanto os maiores. No caso dos arcanos maiores, uma visão ampla do caminho percorrido desde o arcano um ao vinte e um, conectados pelo Louco, pode elucidar muito sobre uma questão específica e também nos retirar dúvidas que parecem perseguir os aprendizes de tarô. Tentemos um exemplo:

Quando a carta que representa o que o outro sente por nós é a Temperança, o que dizer? Como compreender o significado desta carta dentro do contexto “a Temperança é o que ele(a) sente por mim”. Nota-se que é muito diferente explicar o que é a Temperança e o que é a Temperança que alguém sente por você. No primeiro caso, a carta torna-se um objeto independente, completo em si e repleto de simbolismo despersonificado; é fácil para nós falarmos que a Temperança é: símbolo divino e cármico, uma longa espera e suspensão dos fatos. Isto é estudado através dos símbolos da carta. Contudo... o que é a Temperança que sente por alguém alguma coisa? Agora, não lidamos mais com a Temperança essencial; nós a estamos desdobrando em pessoas, sentimentos e objetos que não serão ela própria. Tenho certeza que isto ficará claro caso você tente dizer a uma pessoa que o que o outro sente por ela é “símbolo divino e cármico, longa espera e suspensão”, já que certamente você levará um soco, uma palavra rude ou ao menos uma cara feia terá como resposta. Isto porque a pergunta não foi respondida; a pergunta nunca é o que o arcano é, mas sim o que está manifestado no objeto que está envolvido pelo arcano naquele momento.

Para que saber o que o arcano é, então? Porque é a partir do que o arcano é que podemos sabemos no que ele se torna em uma dada situação. Se não soubermos simbolicamente a respeito dele, nunca poderemos partir para a interpretação dele naquele dado contexto. Daí o erro em renomear Torre em Destruição: destruição é o que a Torre pode se tornar mas não é o que ela é! Nomeando-a como tal, a compreensão se distorce e a interpretação fatalmente erra.

Tornando a questão anterior, como a ordem pode nos ajudar num caso como aquele? Além de termos de saber o que a Temperança se torna dada a situação, qual o efeito da ordem no significado da Temperança? Algumas análises são óbvias e outras nem tanto. Partamos então para as mais fáceis:

A Temperança não é o arcano um, nem o último arcano. Por isto, o sentimento está contido num processo. Não é algo inicial, à primeira vista, um encanto que nos inebria ou a paixão que arrebata em apenas um instante; não é a primeira atração. Já que não é o último, sabemos também que não está terminando, não está claro nem certo ainda o que se sente e ainda há um caminho a ser percorrido.

Isto pode soar como excessiva generalização ou como pontos irrelevantes em uma interpretação, mas nos ajuda a evitar uma série de erros; ao reconhecer a Temperança como parte de um processo, local do mesmo que não está no fim nem no início, podemos saber do consulente que este sentimento que existe “não é de hoje”. Ele não se formou ontem nem terminará amanhã. Além disso, reconhecemos que há uma história de símbolos e significados até alcançarmos a Temperança, que este sentimento já provou; a Temperança é a apenas o estágio no qual ele reside.

Prosseguimos. A carta anterior a Temperança é a Morte, o arcano treze. Quais os significados do arcano treze? Como qualquer ordem linear, se a sequência à Morte é a Temperança, logo a Temperança é a consequência da Morte. Isto nos traz novos significados: a Morte é um período de mudança e renovação onde a foice corta o mau fruto para que o bom fruto tenha espaço para crescer novamente. Ora, a Morte corta o mau fruto. Este é o seu significado. Ponto final. Não podemos considerar que a Morte corte, colha e plante o bom fruto, pois ela é apenas parte de um ciclo e não o ciclo em si. Por isto, a consequência da Morte é um terreno limpo, pronto para que se faça o tratamento necessário durante o tempo que for preciso para que o fruto possa ser replantado.

Apenas com esta explicação, já apreendemos duas palavras-chave da Temperança: tratamento e tempo. Prossigamos um pouco mais a respeito da ordem mantendo nosso exemplo.

O que dizer do arcano seguinte? Analisemos da mesma maneira: o arcano que segue a Temperança é o Diabo, o arcano quinze; logo, o Diabo é a consequência da Temperança. Usando a mesma linguagem da explicação sobre a Morte, temos que a Temperança tratou da terra e a plantou o fruto, esperando o tempo necessário tanto para o tratamento quanto para o plantio. Lembremo-nos que algumas frutas demoram anos para poderem ser colhidas. Qual é o próximo passo? Bem, planta-se o fruto para poder comê-lo. O Diabo experimenta do fruto e farta-se dele, até que o seu excesso seja punido. Como o Diabo não parará de se deliciar com o fruto tratado no terreno da Temperança, só a sua consequência – a Torre – poderá fazer com que ele se dê conta de seu erro pelo excesso, rompendo com a sua esbórnia.

Todos esses significados serão obtidos a partir de uma análise da ordem da carta dentro da organização e filosofia do Tarô e transformados para que caibam na situação questionada, de acordo com seus símbolos, para que possamos finalmente responder a pergunta. Todavia, apenas por estas pequenas explicações, pode-se notar como a ordem dos arcanos, feita a partir do pensamento concebido para o Tarô, pode nos trazer muito sobre significados de cada carta, além dos próprios símbolos contidos na carta. A ordem por si só conta uma história repleta de passagens arquetípicas que podem, num relance, trazer soluções a questões antes duvidadas por falta de uma análise mais completa.

Gustavo Pessoa
Tarólogo