Estava passeando pela internet quando me deparei com
um conceito muito interessante: a antroposofia. Nunca
tinha ouvido essa palavra antes, e suspeito que você
provavelmente também não saiba precisamente
o que significa. Como todo cidadão letrado faz,
recorri ao dicionário: antroposofia é um
substantivo aplicável a qualquer doutrina que fala
sobre a espiritualidade humana. Foi também uma
teoria de Rudolf Steiner, que acredita poder unir à
espiritualidade o mesmo método das ciências
naturais.
É curiosa essa definição. A palavra
antroposofia parece então substituir a palavra
espiritualidade, e ganha de brinde a palavra doutrina.
Doutrina é apenas um conjunto de preceitos sobre
determinada coisa que necessita ser ensinado. A idéia
de que uma doutrina precisa ser ensinada realmente me
incomoda, porque diz que ela é algo tão
fundamental que todos devem aprender. Fundamental, como
se sabe, compõe a palavra fundamentalista, que
leva também a associações diretas
com dogma, intolerância, inflexibilidade e eventualmente
terrorismo.
Por que será, então, que a morada da espiritualidade
virou a antroposofia?
A casa é algo muito singular. O filósofo
francês Gaston Bachelard levou um livro inteiro
para ousar o empreendimento de compreensão da casa.
A casa é sagrada, porque é o nosso canto,
aonde moramos, nos refugiamos e nos encontramos conosco
mesmos. É na casa que podemos ser quem somos, e
na casa nos livramos de todos aqueles pesos imensos que
o mundo externo nos coloca. É na casa que tentamos
sair deste sistema louco que transforma tudo em produto
e correria, produtividade e lucro. Tentamos voltar a idéia
básica de família, de afeto. Enfim, é
na casa que mora a nossa tentativa de reconexão
com a realidade mais bela do mundo. É a reconexão
com as coisas mais básicas, mais simples, e mais
verdadeiras. A casa é, no fundo, apenas uma cabana
fincada na terra, profundamente em contato com a natureza
e a vida.
A palavra antroposofia me remete a outra coisa. Mansões
em estilo neoclássico, ostentadoras de um modo
de ser preocupado apenas com as coisas em quantidade do
que em qualidade. Bauman, em suas teorias sobre a sociedade
líquida, já diz que hoje precisamos de números:
os números determinam o valor. Quantos livros você
leu? Quantas palestras você ministrou? Quantos países
já visitou? Você vale a quantidade de coisas
que já fez ou tentou, mesmo que você ainda
não tenha descoberto o que você é.
É uma distância enorme entre este pensamento
e a casa simples.
O Imperador e a Imperatriz contém neles mesmas
imagens da casa. Na maioria das imagens das cartas imperiais,
vemos uma paisagem tranquila, e muitos imperadores e imperatriz
são mais que um: o imperador por vezes aparece
cercado de crianças ou pessoas, e a imperatriz
comumente está grávida. Existe uma atmosfera
de cores vivas, e há sempre o trono, um símbolo
de poder, mas também de arte humana e de casa:
em que casa não há um assento? Seja cama
ou cadeira, banco ou uma escada pequena aberta na área
de serviço, sentamo-nos todos. Sentar e deitar
são o que fazemos para descansar, não apenas
para governar. E descansamos na simplicidade da casa,
quando não precisamos mais fingir que somos tão
complexos; porque, logicamente, se conseguimos ser tão
complexos a ponto dos outros não nos entenderem,
eles não podem nos medir ou nos julgar, e escapamos
dessa chatice de termos valor. Não seremos menos
nem mais, apenas chiques. Porque virou chique ser complexo.
Uma piada transversal se faz aqui: soubessem profundamente
o que C. G. Jung postulou sobre os complexos, não
achariam nem chique, nem complexo. O complexo é
natural e parte da vida, e é realmente incompreensível.
Mas se manter na incompreensão é inadequado,
para usar o maior dos eufemismos.
Dê uma boa olhada em imagens ricas do Imperador
e da Imperatriz e em suas cores, e em tudo que existe
nelas. É um ambiente semi-urbano, seminatural.
É uma imagem na qual existe algo criado pelo homem,
e existe algo que sempre existiu, pertencente à
natureza, tal como o homem também é. São
imagens que invocam toda nossa capacidade de equilíbrio
entre o pertencimento e o desprendimento, e a realidade
que não precisamos de grandes mansões, hotéis,
flats e tecnologias para alcançarmos o tão
almejado reencontro com a natureza e a espiritualidade.
Se a Imperatriz e o Imperador falassem, eu duvido muito
de que se chamariam de antroposóficos. E creio
que ficariam bastante ofendidos se lhes dissessem que
eles não possuem espiritualidade. Porque a espiritualidade
habita o simples, a descomplexificação que
traz a profundidade do ser. A espiritualidade está
na vivência plena do ser humano e seu trono, sem
precisar retirar o trono de seu chão de terra e
dos campos verdes que o cercam. Nossa morada é
simples, e espiritual.
Por fim: a espiritualidade não necessita das ciências
naturais como moradas. Como Jung já disse, não
é possível tentar investigar a psique individual
como se ela fosse um objeto como nas ciências naturais.
Ela não é. Quando estudamos a espiritualidade
humana, bem como tudo aquilo que cerca o ser humano, é
a psique estudando ela mesma. Nós estamos nos estudando.
Devíamos nos contentar em ser tão pouco
subjetivos quanto possíveis, porque imparcialmente
objetivos nunca seremos, já dizia o psiquiatra
suíço. Não precisamos fingir a complexidade
do estudo para produzir estudo de qualidade. Não
precisamos pretender que somos espiritualmente elevados
para nos entregarmos a espiritualidade. Nós somos
simples e complexos, e temos muitas moradas. Espero que
todos possamos identificá-las e escolher aquelas
que, em sua simplicidade, revela toda a profunda espiritualidade
que habita cada ser.