Artigo Tarô | Escrito por Gustavo Pessoa
A Morada do Império: A Casa Sagrada do Imperador

Estava passeando pela internet quando me deparei com um conceito muito interessante: a antroposofia. Nunca tinha ouvido essa palavra antes, e suspeito que você provavelmente também não saiba precisamente o que significa. Como todo cidadão letrado faz, recorri ao dicionário: antroposofia é um substantivo aplicável a qualquer doutrina que fala sobre a espiritualidade humana. Foi também uma teoria de Rudolf Steiner, que acredita poder unir à espiritualidade o mesmo método das ciências naturais.

É curiosa essa definição. A palavra antroposofia parece então substituir a palavra espiritualidade, e ganha de brinde a palavra doutrina. Doutrina é apenas um conjunto de preceitos sobre determinada coisa que necessita ser ensinado. A idéia de que uma doutrina precisa ser ensinada realmente me incomoda, porque diz que ela é algo tão fundamental que todos devem aprender. Fundamental, como se sabe, compõe a palavra fundamentalista, que leva também a associações diretas com dogma, intolerância, inflexibilidade e eventualmente terrorismo.

Por que será, então, que a morada da espiritualidade virou a antroposofia?

A casa é algo muito singular. O filósofo francês Gaston Bachelard levou um livro inteiro para ousar o empreendimento de compreensão da casa. A casa é sagrada, porque é o nosso canto, aonde moramos, nos refugiamos e nos encontramos conosco mesmos. É na casa que podemos ser quem somos, e na casa nos livramos de todos aqueles pesos imensos que o mundo externo nos coloca. É na casa que tentamos sair deste sistema louco que transforma tudo em produto e correria, produtividade e lucro. Tentamos voltar a idéia básica de família, de afeto. Enfim, é na casa que mora a nossa tentativa de reconexão com a realidade mais bela do mundo. É a reconexão com as coisas mais básicas, mais simples, e mais verdadeiras. A casa é, no fundo, apenas uma cabana fincada na terra, profundamente em contato com a natureza e a vida.

A palavra antroposofia me remete a outra coisa. Mansões em estilo neoclássico, ostentadoras de um modo de ser preocupado apenas com as coisas em quantidade do que em qualidade. Bauman, em suas teorias sobre a sociedade líquida, já diz que hoje precisamos de números: os números determinam o valor. Quantos livros você leu? Quantas palestras você ministrou? Quantos países já visitou? Você vale a quantidade de coisas que já fez ou tentou, mesmo que você ainda não tenha descoberto o que você é. É uma distância enorme entre este pensamento e a casa simples.

O Imperador e a Imperatriz contém neles mesmas imagens da casa. Na maioria das imagens das cartas imperiais, vemos uma paisagem tranquila, e muitos imperadores e imperatriz são mais que um: o imperador por vezes aparece cercado de crianças ou pessoas, e a imperatriz comumente está grávida. Existe uma atmosfera de cores vivas, e há sempre o trono, um símbolo de poder, mas também de arte humana e de casa: em que casa não há um assento? Seja cama ou cadeira, banco ou uma escada pequena aberta na área de serviço, sentamo-nos todos. Sentar e deitar são o que fazemos para descansar, não apenas para governar. E descansamos na simplicidade da casa, quando não precisamos mais fingir que somos tão complexos; porque, logicamente, se conseguimos ser tão complexos a ponto dos outros não nos entenderem, eles não podem nos medir ou nos julgar, e escapamos dessa chatice de termos valor. Não seremos menos nem mais, apenas chiques. Porque virou chique ser complexo.

Uma piada transversal se faz aqui: soubessem profundamente o que C. G. Jung postulou sobre os complexos, não achariam nem chique, nem complexo. O complexo é natural e parte da vida, e é realmente incompreensível. Mas se manter na incompreensão é inadequado, para usar o maior dos eufemismos.

Dê uma boa olhada em imagens ricas do Imperador e da Imperatriz e em suas cores, e em tudo que existe nelas. É um ambiente semi-urbano, seminatural. É uma imagem na qual existe algo criado pelo homem, e existe algo que sempre existiu, pertencente à natureza, tal como o homem também é. São imagens que invocam toda nossa capacidade de equilíbrio entre o pertencimento e o desprendimento, e a realidade que não precisamos de grandes mansões, hotéis, flats e tecnologias para alcançarmos o tão almejado reencontro com a natureza e a espiritualidade.

Se a Imperatriz e o Imperador falassem, eu duvido muito de que se chamariam de antroposóficos. E creio que ficariam bastante ofendidos se lhes dissessem que eles não possuem espiritualidade. Porque a espiritualidade habita o simples, a descomplexificação que traz a profundidade do ser. A espiritualidade está na vivência plena do ser humano e seu trono, sem precisar retirar o trono de seu chão de terra e dos campos verdes que o cercam. Nossa morada é simples, e espiritual.

Por fim: a espiritualidade não necessita das ciências naturais como moradas. Como Jung já disse, não é possível tentar investigar a psique individual como se ela fosse um objeto como nas ciências naturais. Ela não é. Quando estudamos a espiritualidade humana, bem como tudo aquilo que cerca o ser humano, é a psique estudando ela mesma. Nós estamos nos estudando. Devíamos nos contentar em ser tão pouco subjetivos quanto possíveis, porque imparcialmente objetivos nunca seremos, já dizia o psiquiatra suíço. Não precisamos fingir a complexidade do estudo para produzir estudo de qualidade. Não precisamos pretender que somos espiritualmente elevados para nos entregarmos a espiritualidade. Nós somos simples e complexos, e temos muitas moradas. Espero que todos possamos identificá-las e escolher aquelas que, em sua simplicidade, revela toda a profunda espiritualidade que habita cada ser.