As interpretações, agora
clássicas, atribuídas ao Tarô, tratam
de compreendê-lo como um instrumento capaz de mostrar
ao indivíduo o caminho que ele está percorrendo,
ou o que ele deveria percorrer. Tais interpretações,
ricas em sua simbologia, procuram entender como as vinte
e duas cartas dos arcanos maiores do Tarô formam
uma sequência observável, isto é,
um caminho. Os vinte e dois trunfos ilustram o ciclo da
vida e de toda situação marcante para alguém.
Seja um amor, um emprego ou uma missão na vida,
quando alguém se posiciona diante do Tarô
e retira cartas, ele conta com mais um recurso para saber
aonde está, e porque está lá.
A estruturação deste método
se deve muito a Nei Naiff. De forma pioneira, ele sistematizou
os símbolos do Tarô, contextualizou o Tarô
dentro da História e empreendeu um trabalho ousado
de análise compreensiva das cartas, extraindo delas
um raciocínio que se aplica a vida da maioria das
pessoas. O resgate desta estrutura que combina arcanos
maiores e arcanos menores é utilíssima,
porém não é suficiente.
Faz-se necessário, agora, que
nos perguntemos: o que se deseja do Tarô? Já
sabemos o que o Tarô deseja de nós. Está
ali, naquelas vinte e duas imagens, o caminho que devemos
percorrer infinitamente em nossas vidas. Existe uma expansão
possível: aumentar a compreensão que se
tem dos símbolos destes arcanos. Mas, talvez mais
importante, seja descobrirmos o que nós, como sujeitos,
desejamos do Tarô. Não podemos mais nos abster,
como se as cartas se jogassem sozinhas. O Tarô só
existe se existe alguém para jogá-lo e interpretá-lo.
Existe apenas se existe uma relação entre
duas pessoas, ou entre você consigo mesmo, para
que alguém leia e interprete, e o outro receba
as informações.
Saber o que se quer do Tarô é
mais do que apenas conseguir identificar o seu momento.
Não se trata de precisar de conselhos ou orientação,
ou descobrir novas facetas do seu ser. Saber o que se
quer do Tarô significa dar a ele uma finalidade,
quer dizer, estudar a fundo a questão do pra que
serve o Tarô? E a pergunta paira no ar. Porque auto
conhecimento e orientação são conceitos
vagos, e maquiam nosso desejo de saber o futuro para poder
controlá-lo, porque temos medo e precisamos de
segurança.
Quero dizer aqui que saber o que se quer
do Tarô significa olhá-lo com honestidade,
e compreender suas limitações. É
impossível fazer tudo com Tarô, de psicologia
a receitas de bolos a estudos de religiões orientais.
Mas no que é possível, precisamos fazer
bem, e saber o que queremos. A orientação
que o Tarô pode dar ressoa na História, porque
o Tarô é antigo. É uma orientação
testada em centenas de anos, e que permanece. Mas do que
se trata? E de que tipo de orientação precisamos?
Descobrir o que se deseja do Tarô é saber
o que o Tarô pode fazer por nós, e saber
em que ponto precisamos desistir dele para assumir responsabilidade
real sobre a nossa vida. Talvez seja saudável fazer
aquele exercício que se aconselha que se faça
com o dinheiro: levante uma carta de Tarô na sua
frente, e fale para ela que a sua vida é sua, não
pertence aquela carta. E você tem total responsabilidade
pela sua vida. O que você deseja?
Gustavo Pessoa
Tarólogo