Artigo Tarô | Escrito por Gustavo Pessoa
O que se deseja do Tarô?

As interpretações, agora clássicas, atribuídas ao Tarô, tratam de compreendê-lo como um instrumento capaz de mostrar ao indivíduo o caminho que ele está percorrendo, ou o que ele deveria percorrer. Tais interpretações, ricas em sua simbologia, procuram entender como as vinte e duas cartas dos arcanos maiores do Tarô formam uma sequência observável, isto é, um caminho. Os vinte e dois trunfos ilustram o ciclo da vida e de toda situação marcante para alguém. Seja um amor, um emprego ou uma missão na vida, quando alguém se posiciona diante do Tarô e retira cartas, ele conta com mais um recurso para saber aonde está, e porque está lá.

A estruturação deste método se deve muito a Nei Naiff. De forma pioneira, ele sistematizou os símbolos do Tarô, contextualizou o Tarô dentro da História e empreendeu um trabalho ousado de análise compreensiva das cartas, extraindo delas um raciocínio que se aplica a vida da maioria das pessoas. O resgate desta estrutura que combina arcanos maiores e arcanos menores é utilíssima, porém não é suficiente.

Faz-se necessário, agora, que nos perguntemos: o que se deseja do Tarô? Já sabemos o que o Tarô deseja de nós. Está ali, naquelas vinte e duas imagens, o caminho que devemos percorrer infinitamente em nossas vidas. Existe uma expansão possível: aumentar a compreensão que se tem dos símbolos destes arcanos. Mas, talvez mais importante, seja descobrirmos o que nós, como sujeitos, desejamos do Tarô. Não podemos mais nos abster, como se as cartas se jogassem sozinhas. O Tarô só existe se existe alguém para jogá-lo e interpretá-lo. Existe apenas se existe uma relação entre duas pessoas, ou entre você consigo mesmo, para que alguém leia e interprete, e o outro receba as informações.

Saber o que se quer do Tarô é mais do que apenas conseguir identificar o seu momento. Não se trata de precisar de conselhos ou orientação, ou descobrir novas facetas do seu ser. Saber o que se quer do Tarô significa dar a ele uma finalidade, quer dizer, estudar a fundo a questão do pra que serve o Tarô? E a pergunta paira no ar. Porque auto conhecimento e orientação são conceitos vagos, e maquiam nosso desejo de saber o futuro para poder controlá-lo, porque temos medo e precisamos de segurança.

Quero dizer aqui que saber o que se quer do Tarô significa olhá-lo com honestidade, e compreender suas limitações. É impossível fazer tudo com Tarô, de psicologia a receitas de bolos a estudos de religiões orientais. Mas no que é possível, precisamos fazer bem, e saber o que queremos. A orientação que o Tarô pode dar ressoa na História, porque o Tarô é antigo. É uma orientação testada em centenas de anos, e que permanece. Mas do que se trata? E de que tipo de orientação precisamos? Descobrir o que se deseja do Tarô é saber o que o Tarô pode fazer por nós, e saber em que ponto precisamos desistir dele para assumir responsabilidade real sobre a nossa vida. Talvez seja saudável fazer aquele exercício que se aconselha que se faça com o dinheiro: levante uma carta de Tarô na sua frente, e fale para ela que a sua vida é sua, não pertence aquela carta. E você tem total responsabilidade pela sua vida. O que você deseja?

Gustavo Pessoa
Tarólogo